É fundamental abordar o impacto dos tratamentos de fertilidade na intimidade do casal
A infertilidade é um desafio no ciclo de vida de um casal, com impacto a vários níveis. Pode afetar a relação, a intimidade e a forma como o casal vive a sexualidade, alerta a psicóloga Filipa Santos.

A Dra. Filipa Santos é psicóloga no IVI Lisboa.
Num contexto dominado por consultas, exames, calendários ovulatórios e expectativas de resultados, o sexo pode deixar de ser um lugar de encontro para se transformar numa tarefa a cumprir, e onde o desejo, pode ficar perdido. "Ao longo dos tratamentos de fertilidade, é comum que a intimidade seja contaminada pela pressão do resultado.
Quando o sexo fica excessivamente associado a um objetivo, como o de engravidar, perde-se a espontaneidade e por vezes instala-se a ansiedade", explica a Dra. Filipa Santos, psicóloga do IVI Lisboa, que acompanha casais em tratamento.
Os números científicos confirmam esta realidade emocional: entre 25% e 40% dos casais com infertilidade apresentam níveis elevados de ansiedade e sintomas depressivos, fatores que interferem diretamente com a libido e a qualidade da relação.
O stresse acumulado, o medo do fracasso, a culpa e a sensação de perda de controlo sobre o próprio corpo contribuem para um afastamento progressivo, muitas vezes vivido em silêncio, sem que nenhum dos dois saiba como diminuir o distanciamento.
Do ponto de vista psicológico, este impacto é compreensível. O corpo passa a ser alvo de intervenções clínicas constantes, a privacidade é reduzida ao mínimo e a sexualidade fica condicionada por orientações médicas e por janelas de oportunidade reprodutiva. É importante que a relação não fique "em pausa" até que o objetivo da gravidez seja alcançado porque isso pode fragilizar, de forma duradoura, o vínculo emocional do casal.
"Cuidar da conjugalidade como um todo, seja na sua vertente mais sexual ou dos afetos é uma forma de preservar a identidade do casal", sublinha a Dra. Filipa Santos. "A intimidade, o desejo e a espontaneidade não devem ser vistos como incompatíveis com os tratamentos. Pelo contrário, fazem parte do equilíbrio emocional necessário para enfrentar esta fase tão exigente".
A vivência da sexualidade durante os tratamentos varia significativamente de casal para casal. Para alguns, o sexo torna-se mecânico, esvaziado de prazer e conexão; para outros, surge o evitamento ou uma desconexão emocional progressiva. Não existe uma resposta única nem uma forma "certa de viver este período, mas há estratégias que ajudam a proteger a relação e a devolver-lhe proximidade, cumplicidade e leveza.
DICAS PARA CUIDAR DA RELAÇÃO DURANTE OS TRATAMENTOS
Separar sexo de procriação, sempre que possível
Promover momentos de intimidade que não estejam ligados aos dias férteis ou às indicações médicas ajuda a devolver espontaneidade e prazer à vida sexual do casal.
Reintroduzir a sedução no dia a dia
A sedução não começa no quarto. Um olhar cúmplice, uma mensagem inesperada, um gesto de carinho, de atenção para o outro ajudam a reativar o desejo e a cumplicidade entre os dois.
Redefinir intimidade para além do ato sexual
Toque, carinho, abraços prolongados e proximidade emocional são fundamentais para manter o vínculo quando o desejo sexual oscila ou se retrai.
Falar abertamente sobre expectativas, medos e frustrações
O diálogo honesto reduz a pressão interna e evita interpretações erradas, ressentimentos ou afastamento emocional silencioso.
Procurar apoio psicológico especializado
O acompanhamento psicológico ajuda o casal a gerir o impacto emocional da infertilidade, a comunicar melhor e a proteger a relação ao longo de todo o processo.
Numa altura do ano em que se celebra o Dia dos Namorados e a ligação entre casais, a Dra. Filipa Santos deixa uma mensagem importante: a relação não deve ficar refém de um resultado clínico. A vida emocional e sexual do casal merece cuidado, atenção e investimento sempre. "Cuidar da relação é também cuidar do caminho que o casal está a fazer. E esse caminho merece ser vivido com proximidade, cumplicidade e, sempre que possível, prazer", conclui a psicóloga.