Um em cada três portugueses nunca ouviu falar de microbiota, mas metade já alterou hábitos para cuidar da sua saúde
Observatório Internacional de Microbiotas 2026 revela que Portugal continua abaixo da média internacional em conhecimento sobre microbioma e microbiota, apesar de haver uma crescente consciencialização para o tema.

De acordo com dados do quarto inquérito do Observatório Internacional de Microbiotas, que envolveu a recolha de respostas de 11 países, apesar dos avanços científicos e da crescente atenção dada à microbiota, o conhecimento dos portugueses sobre o tema continua limitado a uma parte da população. Apenas 1 em cada 5 (21%) afirma saber exatamente o que é a microbiota e um terço dos inquiridos (34%) nunca ouviu sequer falar do conceito, valores que colocam Portugal abaixo da média internacional.
Em antecipação ao Dia Mundial do Microbioma*, que se assinala a 27 de junho, o Biocodex Microbiota Institute, plataforma internacional de referência e de especialização sobre o microbioma e microbiota humana, divulga os resultados do novo inquérito internacional para destacar a importância que os microrganismos têm na saúde humana e que envolveu países como Portugal, França, Alemanha, Itália, Polónia, Finlândia, Estados Unidos da América, Brasil, México, China e Vietname.
Para Joana Ferreira Gomes, investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, os resultados mostram que existe um crescimento do interesse dos portugueses pelo tema, mas que ainda existe um importante caminho a percorrer ao nível da literacia em saúde.
Para a investigadora, "nos últimos anos, o estudo na área do microbioma da microbiota tem vindo a revelar associações entre a microbiota intestinal e várias dimensões da saúde, nomeadamente o sistema imunitário, o metabolismo e o eixo intestino-cérebro. Uma das descobertas mais interessantes tem sido precisamente essa comunicação bidirecional entre o intestino e o sistema nervoso central, que tenta esclarecer as potenciais relações entre a microbiota e o funcionamento cerebral, nomeadamente em aspetos como o humor, o comportamento e em algumas condições neurológicas e psiquiátricas ", afirma.
Profissionais de saúde são a principal fonte de informação credível sobre o tema
O estudo refere os profissionais de saúde como fator decisivo na educação da população sobre o tema. Praticamente a totalidade dos portugueses (90%) consideram-nos a fonte mais credível de informação sobre a microbiota, mas apenas 32% afirmam ter recebido informação completa sobre o tema pelo menos uma vez, incluindo o seu papel na saúde e os comportamentos que ajudam a preservá-la.
Para a investigadora, esta realidade reforça a importância da comunicação baseada na evidência científica, uma vez que "os profissionais de saúde têm um papel essencial na tradução da informação. Numa área que gera muito interesse, mas também alguma desinformação, é importante ajudar a população a distinguir o que é bem sustentado pela evidência científica daquilo que são promessas ou modas".
Primeiros mil dias de vida continuam a ser uma oportunidade de sensibilização
A microbiota é constituída por milhões de microrganismos (bactérias, vírus, fungos) que vivem em simbiose no nosso corpo. E não se limita ao intestino: existe também microbiota na pele, na boca, nos pulmões, no trato urinário e na vagina. Cada uma destas microbiotas desempenha funções específicas no equilíbrio do organismo. No caso da microbiota intestinal, núcleo essencial de regulação do sistema imunitário, qualquer perturbação, especialmente nos primeiros mil dias de vida, pode ter consequências irreversíveis na saúde futura.
Para Joana Ferreira Gomes, é fundamental aumentar a sensibilização sobre o conceito dos primeiros mil dias de vida. Nesta área, o estudo identificou que apenas 32% dos pais e grávidas conhecem o conceito. "Os primeiros anos de vida são um período particularmente importante para o desenvolvimento da microbiota intestinal, uma vez que é nesta fase que ela é adquirida e se vai estabilizando. Sabemos que fatores como a alimentação, o ambiente e algumas exposições precoces podem influenciar este processo." Mas, é importante não criar alarme nas famílias. "É importante que os pais estejam informados sobre o tema, não para criar preocupações desnecessárias, mas para compreenderem que algumas escolhas e hábitos de vida saudáveis podem ter impacto no desenvolvimento da criança."
Cuidar da microbiota passa por cuidar da saúde como um todo
Uma das principais conclusões do estudo é que os portugueses associam cada vez mais a microbiota à saúde. De facto, apesar do conhecimento reduzido, atualmente 50% dos portugueses refere ter alterado comportamentos para proteger a sua microbiota, o que reflete uma maior consciencialização sobre a sua importância para a saúde e bem-estar.
No entanto, a especialista alerta para a inexistência de "soluções isoladas ou "milagrosas". "Neste momento não existe uma única intervenção específica para cuidar da microbiota, mas sim um conjunto de hábitos de vida que, em simultâneo, promovem a saúde intestinal e a saúde global". E conclui que "aquilo que faz bem à microbiota é, em grande medida, aquilo que faz bem ao organismo como um todo, ou seja, uma alimentação equilibrada, rica em alimentos de origem vegetal e minimamente processados, a prática regular de atividade física, um sono adequado e a redução de comportamentos prejudiciais."
Outros dados do inquérito em Portugal
A consciência sobre a microbiota em Portugal continua a ser das mais baixas, sem melhorias significativas ao longo do tempo.
Embora o conhecimento sobre o microbioma e a microbiota tenha registado uma ligeira melhoria nos últimos anos, Portugal continua abaixo da média internacional. Apenas 21% dos portugueses afirmam saber exatamente o que é a microbiota, enquanto 34% nunca ouviram falar do conceito.
A diversidade das microbiotas continua a ser subestimada e pouco conhecida:
Microbiota intestinal: 20% afirmam saber exatamente o que é (-1 ponto face a 2025);
Microbiota vaginal: 16% (-1 ponto face a 2025);
Microbiota oral: 14% (= face a 2025);
Microbiota cutâneo: 11% (-3 pontos face a 2025).
Os portugueses continuam a demonstrar uma adoção moderada de hábitos favoráveis à microbiota, embora se observe uma evolução gradual em alguns indicadores:
50% afirmam ter alterado os seus comportamentos de alguma forma para manter a microbiota equilibrada e a funcionar de forma eficiente (+1 pontos face a 2025, vs. 53% média global);
12% referem ter mudado muito os seus hábitos (+3 pontos face a 2025);
68% praticam regularmente atividade física (vs. 73% média global);
57% consomem frutas e vegetais diariamente (vs. 40% média global);
36% limitam o consumo de alimentos ultraprocessados (+2 pontos que a média global).
Apenas 34% consomem probióticos regularmente e 28% prebióticos (vs 42% e 38% média global, respetivamente).
O interesse impulsionado pelos profissionais de saúde:
A quase totalidade dos portugueses (90%) considera os profissionais de saúde como a principal fonte de informação fiável sobre microbiota (+1 ponto face a 2025, vs. 94% média global);
A informação fornecida pelos profissionais de saúde continua limitada, apesar dos progressos registados nos últimos anos:
35% afirmam já ter recebido informação sobre microbiota, o seu papel e as suas funções (valor semelhante a 2025 e ainda abaixo da média global, que se situa nos 39%);
41% recebeu informação sobre a importância de preservar o equilíbrio da microbiota para a saúde e 43% recebeu aconselhamento sobre comportamentos que ajudam a manter o equilíbrio da microbiota.
O Observatório Internacional de Microbiotas 2026, promovido pelo Biocodex Microbiota Institute, realizou 7.500 inquéritos em 11 países: Portugal, França, Alemanha, Itália, Polónia, Finlândia, Estados Unidos da América, Brasil, México, China e Vietname. Os inquéritos foram feitos online, entre os dias 3 de fevereiro e 13 de março, com amostras representativas de cada país e com quotas definidas para género, idade, região e profissão.
A quarta edição do observatório analisa o conhecimento, perceções e comportamentos da população relativamente ao microbioma e microbiota, bem como o papel dos profissionais de saúde na educação sobre este tema.