Maria Luís Gameiro: Uma Princesa no deserto
Duas participações no Dakar, duas chegadas à meta e a conquista do da Taça das Senhoras: Maria Luís Gameiro mostrou a fibra de que são feitas as mulheres e concluiu com sucesso a sua segunda passagem pela prova mais dura do mundo.

O Dakar 2026 de Maria Luís Gameiro começou com uma ambição clara: terminar. O objetivo era simples, mas ambicioso: completar, pela segunda vez consecutiva, o rali mais duro do mundo, agora num patamar ainda mais competitivo. Os primeiros dias mostraram uma Maria sólida, a ganhar ritmo, a adaptar-se ao MINI e a evidenciar um andamento competitivo. Mas o Dakar tratou de lembrar cedo que as dificuldades espreitam a qualquer altura.
Na Etapa 2, quando tudo prometia ser um bom dia, surgiu um dos momentos mais marcantes da prova: o MINI foi abalroado por um camião, num incidente que danificou o carro, roubou tempo precioso e, sobretudo, atirou a dupla para bem mais atrás na ordem de partida.
A partir daí, quase todas as etapas começaram no meio do pó, em trilhos cavados, obrigando a gerir ultrapassagens e a proteger a mecânica onde se queria apenas atacar. O andamento que antes evidenciou e que tinha tudo para redundar num muito melhor resultado final, ficou irremediavelmente hipotecado.
A primeira semana fechou, ainda assim, em crescendo. A primeira maratona, sem assistência, foi um teste de maturidade: duas etapas longas, em que a dupla liderada por Maria Luís Gameiro cumpriu o plano traçado na perfeição. Subiram na geral, reforçaram a confiança e encararam o dia de descanso com entusiasmo redobrado. Apesar do azar da segunda etapa, a prestação da dupla da X-raid tinha sido sem mácula.

Se a primeira semana foi dura, mas globalmente positiva, a segunda foi implacável. Surgiram problemas na caixa de velocidades na etapa 7, que roubaram andamento e obrigaram a mudar por completo a forma de conduzir. Na etapa 8, uma duna causou dificuldades inesperadas e obrigou a dupla a cavar durante uma hora. A certa altura, de depois de tantos azares, o MINI passou a representar um exercício de gestão permanente: barulhos preocupantes, receio de quebra total, ritmo condicionado. Mas, mais uma vez, terminaram, assim como nas etapas seguintes, até ao derradeiro quilómetro.
A verdade é que todos os esforços foram compensados e que o digam até os colegas de equipa da piloto portuguesa. Ao longo da prova Maria Luís Gameiro parou por sete ocasiões para prestar assistência aos seus colegas na X-Raid, função que a certo ponto assumiu quase em exclusivo, mas que teve um papel preponderante para o sucesso da equipa, fazendo com que nenhum deles tivesse que "descer" para o Dakar Experience.
Este Dakar não se fez apenas de cronómetros e classificações. Fez-se de bivouacs que parecem cidades, de noites partilhadas com nomes grandes do rali-raid, como Nani Roma, Stéphane Peterhansel e até os "campeões" Nassel Al-Attiyah e Paulo Fiuza, e muitas outras figuras de topo. Fez-se de conversas, de relatos trocados à volta de histórias de etapas onde todos, à sua maneira, "quase ficaram pelo caminho". Fez-se também de uma relação especial com os portugueses que partilham o pelotão. Embora dispersos pelo imenso bivouac, muitas vezes afastados por compromissos, horários e logística, houve sempre um olhar atento aos resultados, um sorriso com cada bandeira verde e vermelha a cruzar a meta.
Ao mesmo tempo, o MINI magenta transformou-se num símbolo. O próprio Sven Quandt, patrão da X-Raid, reconheceu que ela cor começou a mexer com ele! Chegaram mensagens de mulheres que se reviam naquela dupla, naquela cor, naquela teimosia em continuar, mesmo com tudo a complicar.
A Taça das Senhoras – ganha entre duplas 100% femininas – é mais do que um troféu: é a materialização dessa representatividade. Sobre este tema aquele responsável alemão, com uma infindável experiencia no Dakar enfatizou "a Maria passou a ser a Princesa do Deserto. Não me canso de a felicitar pelo que conseguiu!"
"Desde o início desta aventura que disse que o Dakar era um sonho tornado realidade. Realizá-lo duas vezes consecutivas, conseguindo chegar ao fim em ambas as ocasiões, deixa-me verdadeiramente orgulhosa. Primeiro porque atingi os objetivos delineados por mim, pela minha equipa, em conjugação com todos os que me acompanham. Segundo, porque, apesar de não parecer, tentar chegar ao fim desta prova é um feito. E, por fim, por todo o projeto sério, montado de forma precisa e profissional, que se tornou em bem mais do que o regresso das mulheres portuguesas ao Dakar."

"Conseguimos superar tudo. Hoje, além da alegria, sinto uma gratidão profunda por ter ao meu lado os melhores e por eles terem tornado isto possível. Agradeço a toda a minha equipa que tornou este sonho numa realidade bem viva e em especial ao meu marido, o José Gameiro, que é o meu pilar, o meu grande impulsionador, que acredita em mim como mais ninguém.

"Começa, aos poucos, a chegar o sentimento de missão cumprida. O MINI magenta destacou-se, tornou-se numa espécie de símbolo para todas as mulheres. Cada vez percebo melhor a paixão que se cria à volta do Dakar. Como é possível amar uma prova que nos leva à exaustão, que nos desafia de tal forma, que nos deixa, por vezes, entre a vida e a morte? Talvez porque é a única forma de entender realmente a importância da vida e de nos colocar à prova. E o Dakar permite-o de forma inigualavelmente dura e bela."
O balanço deste Dakar é simples e poderoso: duas participações, duas chegadas à meta, uma Taça das Senhoras, um lugar firme entre os Ultimate e uma narrativa que mistura dureza, teimosia, entreajuda e alegria genuína.
A posição final não revela tudo. Não conta o camião que a abalroou, as noites de maratona, o pó que parecia não ter fim, as conversas no bivouac, as ultrapassagens feitas quase às cegas. Não conta as vezes em que teria sido mais fácil parar – e elas escolheram continuar.
O Dakar 2026 termina, mas a história de Maria Luís Gameiro no deserto está longe de acabar. Este balanço não é um ponto final – é uma vírgula em algo que, claramente, ainda tem muitos quilómetros pela frente.